Viagens na minha Terra

de Almeida Garrett

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Editor: Neolivros

Ano de edição: 2004

Ano de edição original: 1846

Páginas: 242

Categorias: Romance

Sinopse

Obra da autoria do autor e dramaturgo romântico Almeida Garrett, publicada em livro pela primeira vez em 1846. Viagens na Minha Terra apresenta uma nova linguagem literária, revelando uma mistura de estilos e de linguagem (popular, jornalística, dramática) única, sendo considerada a "precursora da moderna prosa literária portuguesa".

Foi inicialmente publicada em folhetim na Revista Universal Lisbonense, dirigida por António Feliciano de Castilho, em 1843. A publicação foi interrompida após o sexto capítulo e só foi retomada em 1845 e terminada em 1846. Nesse mesmo ano sai a primeira edição independente, em dois volumes. O texto da edição em livro apresentava já correcções.

Relata a viagem de Garrett a Santarém, respondendo a um convite do seu amigo Passos Manuel, ex-chefe dos Setembristas e principal opositor à ditadura de Costa Cabral, então no poder. Não é, portanto, de estranhar que a opinião pública de então lhe tenha atribuído um objectivo político, ainda que nada prove essa intenção do autor.

O autor revela ao longo da obra a sua capacidade de despertar no leitor a curiosidade e mantê-lo em expectativa entre cada capítulo (ou folhetim). A obra é enriquecida pelas digressões e divagações do autor, por isso se fala em viagens e não em viagem. São "viagens pela história, pela arte, pela tradição e pela literatura portuguesas".

As Viagens não se fixam unicamente na narrativa da viagem. A partir do capítulo X alterna com ela a história de Carlos, Frei Dinis e Joaninha ou a "história da menina dos rouxinóis", novela contada a Garrett por um seu companheiro de viagem. No capítulo XLIII o plano da viagem e o plano da novela fundem-se e Garrett encontra as personagens da novela. Realidade e ficção misturam-se: a viagem, facto verídico, e a novela, pura ficção, muito embora Garrett se esforce por contá-la como verídica.

A obra não deixa de fazer uma análise da situação política e social do país, pela simbologia das personagens Carlos e Frei Dinis: a posição ente renovação liberal e absolutismo. O fracasso de Carlos representa o fracasso do país saído da guerra entre liberais e miguelistas.

Ler Viagens na Minha Terra é viajar simultaneamente no tempo e no espaço, conhecendo a atitude crítica evidenciada pelo autor relativamente ao seu presente.


Autor

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett(1799 - 1854)

Escritor e dramaturgo romântico português, nasceu no Porto a 4 de Fevereiro de 1799. Aquando das invasões francesas a sua família refugiou-se nos Açores, onde passou a adolescência.

Regressa a Portugal em 1816, ingressando na Universidade de Coimbra na Faculdade de Leis, aí tomando contacto com os ideais liberais.

A sua participação activa na vida política portuguesa do século XIX obriga-o ao exílio no estrangeiro sempre que os absolutistas retomam o poder.

Ocupou diversos cargos públicos, sendo responsável pela elaboração do plano que conduz à criação do Teatro Nacional [D. Maria II], durante o governo do seu amigo Passos Manuel.

Em 1843 começa a publicar, na Revista Universal Lisbonense, as Viagens na minha Terra.

Foi um forte opositor ao regime de Costa Cabral, que compara ao regime absolutista de D. Miguel. O apoio dado à revolução da Maria da Fonte e a Guerra Civil da Patuleia obrigam-no a permanecer escondido durante algum tempo, sendo afastado da vida política até 1852.

Morre em Lisboa a 9 de Dezembro de 1854.

Mais sobre o autor: www.instituto-camoes.pt/escritores/garrett.htm


Excerto

CAPÍTULO I

De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. – Parte para Santarém. – Chega ao terreiro do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. –A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. –Lorde Byron e um bom charuto. –Travam-se de razões os ilhavos e os Bordas-d’Água: os da calça larga levam a melhor.

Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, (1) de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como S. Petersburgo — entende-se. Mas com este clima, com esse ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.

Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de estio, viajo até a minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens nem as suas impressões pois tinham muito que ver! Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.

Era uma ideia vaga; mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonteiras de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita.