O Crime do Padre Amaro

de Eça de Queirós

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Editor: Neolivros

Ano de edição: 2006

Ano de edição original: 1875

Páginas: 288

Categorias: RomanceLiteratura Portuguesa

Sinopse

O Crime do Padre Amaro foi publicado pela primeira vez em folhetins na Revista Ocidental, corria o ano de 1875. Será publicado em volume no ano seguinte e assumirá a forma definitiva na edição de 1880. Obra polémica que causou desde logo protestos da Igreja Católica. Relata a história do recém-chegado padre Amaro a uma paróquia de Leiria. O jovem padre terá de conviver com religiosos corruptos e enfrentar as tentações mundanas, acabando por se envolver com a Beata Amélia.

É um documento humano e social do país e da sua época. É com O Crime do Padre Amaro que se dá a implantação efectiva do Realismo em Portugal, seguida pela publicação d' "O Primo Basílio", também de Eça de Queirós. [Wikipédia] Recentemente, foi adaptado ao cinema pelo mexicano Carlos Carrera (2002) e pelo português Carlos Coelho da Silva (2005).


Autor

Eça de Queirós

Eça de Queirós é considerado um dos autores mais importantes da língua portuguesa, integrando a notável Geração de 70. Destaca-se pela originalidade e riqueza da sua linguagem, nomeadamente pelo seu realismo descritivo e pela crítica à sociedade contemporânea constante nas suas obras.

O seu acervo inclui obras como "Os Maias", "O Primo Basílio", "O Mandarim", "A Relíquia" ou "A Cidade e as Serras".

Não descurou a participação activa na vida do país. Para além de escritor e ensaísta, foi jornalista e epistológrafo, tendo ocupado alguns cargos políticos. 


Excerto

I

Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria, que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica - que o detestava - costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:

- Lá vai a jibóia esmoer. Um dia estoura!

Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe - à hora em que defronte, na casa do doutor Godinho que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.

Nunca fora querido das devotas; arrotava no confessionário, e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia!

E quando as beatas, que lhe eram fiéis, lhe iam falar de escrúpulos de visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando: - Ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus! Mais miolo na bola!

As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no:

- Coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe e beba-lhe, criatura!

Era miguelista - e os partidos liberais, as suas opiniões, os seus jornais enchiam-no duma cólera irracionável:

- Cacete! cacete! exclamava, meneando o seu enorme guarda-sol vermelho. Nos últimos anos tomara hábitos sedentários, e vivia isolado - com uma criada velha e um cão, o Joli. O seu único amigo era o chantre Valadares, que governava então o bispado, porque o senhor bispo D. Joaquim gemia, havia dois anos, o seu reumatismo, numa quinta do Alto Minho. O pároco tinha um grande respeito pelo chantre, homem seco, de grande nariz, muito curto de vista, admirador de Ovídio - que falava fazendo sempre boquinhas, e com alusões mitológicas.

O chantre estimava-o. Chamava-lhe Frei Hércules.

- Hércules pela força - explicava sorrindo, Frei pela gula.

No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava oferecer-lhe todos os dias rapé da sua caixa de ouro, disse aos outros cônegos, baixinho, ao deixar-lhe cair sobre o caixão, segundo o ritual, o primeiro torrão de terra:

- É a última pitada que lhe dou!

Todo o cabido riu muito com esta graça do senhor governador do bispado; o cônego Campos contou-o à noite ao chá em casa do deputado Novais; foi celebrada com risos deleitados, todos exaltaram as virtudes do chantre, e afirmou-se com respeito - que sua excelência tinha muita pilhéria!

Dias depois do enterro apareceu, errando pela Praça, o cão do pároco, o Joli. A criada entrara com sezões no hospital; a casa fora fechada; o cão, abandonado, gemia a sua fome pelos portais. Era um gozo pequeno, extremamente gordo, - que tinha vagas semelhanças com o pároco. Com o hábito das batinas, ávido dum dono, apenas via um padre punha-se a segui-lo, ganindo baixo. Mas nenhum queria o infeliz Joli; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sóis; o cão, repelido como um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas. Uma manhã apareceu morto ao pé da Misericórdia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguém tomou a ver o cão, na Praça, o pároco José Miguéis foi definitivamente esquecido.

Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro pároco. Dizia-se que era um homem muito novo, saído apenas do seminário. O seu nome era Amaro Vieira. Atribuía-se a sua escolha a influências políticas, e o jornal de Leiria, A Voz do Distrito, que estava na oposição, falou com amargura, citando o Gólgota, no favoritismo da corte e na reação clerical. Alguns padres tinham-se escandalizado com o artigo; conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor chantre.