Dispersão

de Mário de Sá-Carneiro

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Editor: Neolivros

Ano de edição: 2010

Ano de edição original: 1914

Páginas: 13

Categorias: Poesia

Sinopse

"Dispersão", obra composta por 12 poemas, é o primeiro livro de poemas de Mário de Sá-Carneiro, dado a publicar em 1914.


Autor

Mário de Sá-Carneiro é um dos maiores poetas do Modernismo português e membro da Geração d'Orpheu. Nasceu em Lisboa a 19 de Maio de 1890, no seio de família abastada. Órfão de mãe aos 2 anos fica entregue ao cuidados dos avós, que residem na Quinta da Vitória em Camarate, arredores de Lisboa. Aos dezanove anos matricula-se em Direito na Universidade de Coimbra, onde não conclui sequer o primeiro ano, mas onde acaba por conhecer o seu grande amigo Fernando Pessoa. Desencantado com Coimbra segue para Paris onde tenciona prosseguir os estudos na Sorbonne. Acaba por entregar-se a uma vida boémia. É também em Paris que escreve as suas composições mais importantes. A partir de 1915, nas cartas que dirige a Pessoa, é visível uma crescente angústia e desalento. Comete suicídio em Paris a 26 de Abril de 1916.


Excerto

Dispersão 

Perdi-me dentro de mim

Porque eu era labirinto,

E hoje, quando me sinto,

É com saudades de mim.


Passei pela minha vida

Um astro doido a sonhar.

Na ânsia de ultrapassar,

Nem dei pela minha vida...


Para mim é sempre ontem,

Não tenho amanhã nem hoje:

O tempo que aos outros foge

Cai sobre mim feito ontem.


(O Domingo de Paris

Lembra-me o desaparecido

Que sentia comovido

Os Domingos de Paris:


Porque um domingo é família,

É bem-estar, é singeleza,

E os que olham a beleza

Não tem bem-estar nem família).


O pobre moço das ânsias...

Tu, sim, tu eras alguém!

E foi por isso também

Que te abismaste nas ânsias.


A grande ave dourada

Bateu asas para os céus,

Mas fechou-as saciada

Ao ver que ganhava os céus.


Como se chora um amante,

Assim me choro a mim mesmo:

Eu fui amante inconstante

Que se traiu a si mesmo.


Não sinto o espaço que encerro

Nem as linhas que projecto:

Se me olho a um espelho, erro–

Não me acho no que projecto.


Regresso dentro de mim,

Mas nada me fala, nada!

Tenho a alma amortalhada,

Sequinha, dentro de mim.


Não perdi a minha alma,

Fiquei com ela, perdida.

Assim eu choro, da vida,

A morte da minha alma.


Saudosamente recordo

Uma gentil companheira

Que na minha vida inteira

Eu nunca vi... Mas recordo


A sua boca doirada

E o seu corpo esmaecido,

Em um hálito perdido

Que vem na tarde doirada.


(As minhas grandes saudades

São do que nunca enlacei.

Ai, como eu tenho saudades

Dos sonhos que não sonhei!...)


E sinto que a minha morte–

Minha dispersão total–

Existe lá longe, ao norte,

Numa grande capital.


Vejo o meu último dia

Pintado em rolos de fumo,

E todo azul-de-agonia

Em sombra e além me sumo.


Ternura feita saudade,

Eu beijo as minhas mãos brancas...

Sou amor e piedade

Em face dessas mãos brancas...


Tristes mãos longas e lindas

Que eram feitas pra se dar...

Ninguém mas quis apertar...

Tristes mãos longas e lindas...


E tenho pena de mim,

Pobre menino ideal...

Que me faltou afinal?

Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...


Desceu-me n’alma o crepúsculo;

Eu fui alguém que passou.

Serei, mas já não me sou;

Não vivo, durmo o crepúsculo.


Álcool dum sono outonal

Me penetrou vagamente

A difundir-me dormente

Em uma bruma outonal.


Perdi a morte e a vida,

E, louco, não enlouqueço...

A hora foge vivida,

Eu sigo-a, mas permaneço...


. . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . .


Castelos desmantelados,

Leões alados sem juba...


. . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . .


Paris–Maio de 1913.