A Confissão de Lúcio

de Mário de Sá-Carneiro

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Editor: Edições Dodó

Ano de edição: 2018

Ano de edição original: 1913

Páginas: 120

Ortografia: Ortografia actualizada (1945)

Categorias: Romance

Sinopse

O escritor Lúcio Vaz confessa a sua inocência, após cumprir dez anos de prisão pelo assassinato do poeta e seu amigo Ricardo de Loureiro, num crime de contornos passionais, «como devem ter dito os jornais do tempo».

Apaixonado por Paris, aí conhecera Ricardo, durante uma festa de uma americana extravagante. A história desenvolve-se em torno de um triângulo amoroso, contituído por Lúcio, a sua amante Marta e Ricardo.


Autor

Mário de Sá-Carneiro (n. 1890) é um dos maiores representantes do modernismo português. Colaborou activamente na revista Orpheu - a célebre Geração d’Orpheu -, em conjunto com Fernando Pessoa, de que era amigo e com quem trocou ampla correspondência.

Num período relativamente curto, que termina com o seu suicídio em Paris em 1916, escreveu poesia - onde se inclui o volume de poemas Dispersão, igualmente disponível na Neolivros -, prosa e teatro. Em 1914 publica, numa edição de autor, a narrativa A Confissão de Lúcio, que aqui apresentamos.


Excerto

Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi, morto para a vida e para os sonhos: nada podendo já esperar e coisa alguma desejando — eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é demonstrar a minha inocência.

Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo do Loureiro é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso. A verdade simples é esta.

E àqueles que, lendo o que fica exposto, me perguntarem: — «Mas porque não fez a sua confissão quando era tempo? Porque não demonstrou a sua inocência ao tribunal?» — a esses responderei: — A minha defesa era impossível. Ninguém me acreditaria. E fora inútil fazer-me passar por um embusteiro ou por um doido... Demais, devo confessar, após os acontecimentos em que me vira envolvido nessa época, ficara tão despedaçado que a prisão se me afigurava uma coisa sorridente. Era o esquecimento, a tranquilidade, o sono. Era um fim como qualquer outro — um termo para a minha vida devastada. Toda a minha ânsia foi pois de ver o processo terminado e começar cumprindo a minha sentença.

Do resto, o meu processo foi rápido. Oh! o caso parecia bem claro... Eu nem negava nem confessava. Mas quem cala consente... E todas as simpatias estavam do meu lado.

O crime era, como devem ter dito os jornais do tempo, um «crime passional». Cherchez la femme. Depois, a vítima um poeta — um artista. A mulher romantizara-se desaparecendo. Eu era um herói, no fim do contas. E um herói com seus laivos de mistério, o que mais me aureolava. Por tudo isso, independentemente do belo discurso do defesa, o júri concedeu-me circunstâncias atenuantes. E a minha pena foi curta.

Ah! foi bem curta — sobretudo para mim... Esses dez anos esvoaram-se-me como dez meses. É que, em realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida. Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou — apenas — os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio.

Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem, têm a paz — pode ser. Entretanto, não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar eu me orgulho de o ter vivido.

Mas ponhamos termo aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de factos. E, para a clareza, vou-me lançando em mau caminho — parece-mo. Aliás, por muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará — estou certo — a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida.

Uma coisa garanto porém: durante ela não deixarei escapar um pormenor, por mínimo que seja, ou aparentemente incaracterístico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer de uma grande soma do factos. E são apenas factos que eu relatarei. Desses factos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro que nunca o experimentei. Endoideceria, seguramente.

Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo é que só digo a verdade. Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade — mesmo quando ela é inverosímil.

A minha confissão é um mero documento.