A Cidade e as Serras

de Eça de Queirós

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Ebook - ePub / PDF

Editor: Neolivros

Ano de edição: 2009

Ano de edição original: 1901

Páginas: 285

Ortografia: Ortografia actualizada (1945)

Categorias: RomanceLiteratura Portuguesa

Sinopse

A obra "A Cidade e as Serras" é um desenvolvimento do conto "Civilização". Surge na "Revista Moderna" em 1899, um ano antes da morte de Eça. A publicação em livro ocorre em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto, que nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris, decide regressar a Tormes, na região do Douro.


Autor

Eça de Queirós é considerado um dos autores mais importantes da língua portuguesa, integrando a notável Geração de 70. Destaca-se pela originalidade e riqueza da sua linguagem, nomeadamente pelo seu realismo descritivo e pela crítica à sociedade contemporânea constante nas suas obras.

O seu acervo inclui obras como "Os Maias", "O Primo Basílio", "O Mandarim", "A Relíquia" ou "A Cidade e as Serras".

Não descurou a participação activa na vida do país. Para além de escritor e ensaísta, foi jornalista e epistológrafo, tendo ocupado alguns cargos políticos.


Excerto

O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival. No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, por cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Arga até ao mar de Âncora. Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, n.º 202. Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa o D. Galeão, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou numa casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta saía nesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma força fácil, levantou o enorme Jacinto–até lhe apanhou a bengala de castão de ouro que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos:

–Oh Jacinto Galeão, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras?