Timor - Paraíso do Oriente

de Adriano Almeida
Sinopse
«Ao fazer a presente narrativa, a minha primeira preocupação foi relatar com rigor uma experiência vivida em Timor, quando a ilha era ainda um Paraíso Perdido e, depois, infelizmente, Terra Mártir dos "Mauberes", para que, um dia, os meus dois filhos, Rui e Luís, nascidos na encantadora e martirizada terra, onde deixaram os cordões umbilicais, a conheçam melhor. Para, depois de ouvirem os factos da boca do pai, possam analizar e compreender o que se passou na sua terra -Timor -, até à revolta da UDT, a 10 de Agosto de 1975.
Para, um dia, quando? Não sei, poderem separar o trigo do joio, quiçá, sentirem-se estusiamados a visitarem os locais onde o pai exerceu funções militares e civis e a mãe Maria Teresa (professora e educadora) ensinou a muitas centenas de timorenses a língua de Camões, o Hino de Portugal e a rezar Ave Maria, a mesma que todos nós bem ouvimos, comovidamente, em português, aquando do trágico massacre de Santa Cruz de má memória.
Procurarei descrever esse Paraíso que foi Timor, para o qual eu e minha mulher demos, de Alma e Coração, os melhores anos da nossa juventude, em troca de quase nada, para que, um dia (já nem sei se estarei vivo para o ver) o martirizado povo de Timor ser mais livre, ir sem medo ao bazar, criar os búfalos e cabritos, mascar o b?tel e areca à sombra das árvores lulics, dançar nas festas de descasque do "n?li" (como antigamente), pois caso contrário, foi em vão todo o nosso desinteressado trabalho no isolamento de Fohor?m, Suai, Aileu, Hatolia, Remexio, Ermera e Viqueque, no Paraíso Perdido, transformado, pelos homens e pelo destino na Terra dos " Mauberes".»
O autor
Adriano Almeida
ADRIANO DE ALMEIDA GOMINHO, nascido em São Nicolau, Cabo Verde, a 15.9.1940, concluiu o curso complementar, antigo sétimo ano, no Liceu Gil Eanes, em São Vicente. Aspirante administrativo na ilha do Fogo, alferes e tenente miliciano em Timor (1963 a 1968), após um curso em Mafra. Administrador de posto do quadro administrativo, adjunto de administrador, tendo administrado os Concelhos de Aileu e de Viqueque, em Timor. Deslocou-se a Portugal, de férias, tendo assistido ao 25 de Abril de 1974.
Por imposição ministerial, apresentou-se em Timor em Setembro de 1974. Regressou a Portugal, com a família, dois dias antes do início da guerra civil naquele território, para ingressar no recém-criado Quadro Geral de Adidos. Em Portugal, exerceu as funções de chefe de secção e, posteriormente, as de Chefe de Repartição da Aviação Civil, após concurso público.
Em 1993, deixou o funcionalismo público, por ter requerido a sua aposentação por motivos de saúde. Dedica-se, actualmente, a relatar as experiências da sua vivência em Timor e Cabo Verde, sob a forma de romances e de narrativas.
Excerto
CAPÍTULO I
Singapura 1963
Pedaços de juncos, cascas de cocos, canas de bambus, caniços vários, objectos e lixos flutuantes iam ficando para trás, deixados na esteira do paquete Timor sulcando as calmas e esverdeadas águas do oceano Índico, exibindo o seu casco brilhante pintado de fresco, rumo ao porto de Singapura, no longínquo estreito de Malaca, nos confins da Ásia. Era o termo de uma viagem que já durara dois longos e infindos meses, por entre o mar e o céu, uma verdadeira aventura, para um rapaz com pouco mais de vinte anos de idade, a caminho de Timor, em missão de soberania, juntamente com os outros soldados da Companhia (a que chamávamos de C.CAÇ456). Vim à proa e sentei-me sobre um bidon vazio e dalí fiquei a contemplar a imensidão daquele ignoto oceano, olhando sem saber para onde. Sobre o castelo da proa, ao meu lado, descansava a pesada âncora do barco, coberta de ferrugem e atada ao convés com uma grossa corda de cânhamo, exalando um forte odor a alcatrão fresco. Pelas frestas do lugar da âncora, escorria um fio de água amarelada pela ferrugem de bordo, que tombava para o mar, esvaíndo-se, de seguida, na aragem fresca daquela manhã luminosa e calma.
– Terra à vista...!
Comentários
Comente esta obra


